11.1.09

Semana Internacional sobre Criatividade - IWE2009

A ESEC - Escola Superior de Educação de Coimbra vai realizar mais uma Semana Internacional, este ano dedicada à Criatividade e Inovação. O encontro e partilha e experiências acontece entre 23 e 27 de Março.

Neste momento a organização do encontro está a receber propostas de participação para comunicações e workshops.

Ver mais em: http://ndsim.esec.pt/pagina/iwe2009/

Animação, Diversidade e Intercâmbios Juvenis



Educação, Animação e Diversidade – os intercâmbios juvenis

Mário Montez – Animador Sociocultural
Colaboração de: Amílcar Costa, Cátia Vilar, Hermínia Pinho, Nádia Zambujo – ESEC



Introdução

O presente documento é a adaptação do texto de apoio à apresentação realizada no Seminário EDUCAÇÃO, ANIMAÇÃO E DIVERSIDADE – os intercâmbios juvenis, em 21 de Novembro de 2008, dirigido a alunos e alunas da ESEC.
O seminário teve como objectivo apresentar os “Intercâmbios Juvenis” como plataforma de trabalho educativo e estratégia de Animação Sociocultural. Enfatisou-se o aspecto da diversidade no diálogo intercultural, na procura de soluções criativas e na construção de uma sociedade global sem grupos ou vontades dominadoras e baseada na Paz.
Ao longo do seminário fizemos uma breve incursão pelos elementos do título, relembrando a sua interligação. Abordámos as questões em torno da Diversidade e de Criatividade enquanto fenómenos inerentes a uma educação e desenvolvimento contemporâneo e pós-moderno. Apresentámos sucintamente duas teorias inerentes a cada um destes fenómenos:
a) Sabedoria das Multidões
b) Pensamento Lateral.

Focalizámos a nossa apresentação na experiência do Bearnaise Project, projecto do Programa Europeu Youth in Action, em que participámos em Outubro de 2008, em Kortrijk, na Bélgica, e que pelo interesse consideramos nosso dever partilhar com colegas da ESEC. Por fim realizámos, com o público participante, uma actividade que revelasse parte da nossa experiência e o potencial dos intercâmbios juvenis enquanto plataforma de intervenção socioeducativa.

OS CONCEITOS

Educação e Animação

Educação e Animação estão estreitamente ligadas, não só pelo aspecto semântico mas também pelo aspecto prático e de acção. A nível semântico ambas se envolvem na necessidade de dar vida e alma a algo ou de trazer para fora e ao de cima, orientadamente, algo que está dentro de cada pessoa. Enquanto a Educação tradicionalmente se centra no processo sobre a pessoa, a Animação centra-se na capacitação das pessoas enquanto elementos activos de uma comunidade. Ao nível das práticas, a Educação está implícita na Animação Sociocultural assim como a Animação permite a acção na Educação Não-Formal. Não é possível pensar em Animação Sociocultural isenta de Educação, como não se pode pensar em Educação sem objectivar a capacitação da pessoa enquanto elemento que interage num ecossistema. Neste contexto surgem dois aspectos essenciais à abordagem deste seminário:
1) o aspecto da Diversidade
2) o aspecto da Criatividade.

Ambos os contextos são essenciais para compreender a importância dos Intercâmbios Juvenis enquanto plataforma de intervenção educativa.


Diversidade e Criatividade

A Diversidade surge nos intercâmbios juvenis como um elemento natural. A realização de intercâmbios juvenis de carácter internacional proporciona o encontro de jovens de vários países diferentes, consumidores e produtores de culturas diferentes. Neste quadro os intercâmbios fomentam o contacto com a diversidade, através de tarefas realizadas em conjunto nas quais se discutem diferentes pontos de vista para o desenvolvimento de uma situação.
O encontro com a Diversidade obriga a tentar compreender e a respeitar pontos de vista divergentes, baseados, muitas vezes, em valores, tradições, crenças e experiências diferentes. Um encontro que poderá ser também confronto de ideias mas nos quais desaparecem obrigatoriamente as habituais dicotomias (ou relações de grandeza) de superior/inferior; melhor/pior; certo/errado; evoluído/atrasado; rico/pobre; experiente/ingénuo; civilizado/primitivo. O intercâmbio entre jovens descobre práticas alternativas ausentes nestas dicotomias mas existentes em outras realidades
[1]. O intercâmbio de jovens educa para a tolerância perante a Diversidade e para a aceitação do Outro, possibilitando, por conseguinte, a aceitação de ideias e de perspectivas diferentes do mundo, eliminando a percepção enviesada do todo através das partes. O respeito pelas ideias e pontos de vista não convergentes com os nossos contribuem em grande parte para a resolução de problemas, de forma inovadora.
Esta visão da Diversidade valoriza-a enquanto factor essencial à troca de aprendizagens, ao desenvolvimento e à inovação. Confronta-se com a tradicional visão dominante de Diversidade enquanto algo que produz ambiguidades e discórdia. Com efeito, a União Europeia é uma construção baseada na Diversidade que procura contributos diversos. Empresas de sucesso apostam na diversidade para a descoberta e lançamento de novos produtos de sucesso. A teoria da Sabedoria das Multidões (Wisdom of Crowds) baseia-se na ideia de que grupos formados na diversidade tomam melhores decisões do que peritos. A Diversidade é, também, uma ferramenta de educação utilizada sem receios pelo movimento da Escola Moderna.
Dar espaço à Diversidade é uma necessidade absoluta na educação contemporânea e na procura de alternativas aos paradigmas do conhecimento, do desenvolvimento, e aos modelos sociais e económicos actuais. A Diversidade é geradora de alternativas e de inovação.
Durante o Bearnaise Project o contacto entre jovens de vários países europeus, portadores de diferentes experiências pessoais, profissionais e sociais, possibilitou a descoberta de soluções inovadoras para as diversas tarefas do programa. Uma das tarefas consistiu em reinventar espaços públicos de lazer, transformando-os em espaços de educação e aprendizagem. O maior desafio e a actividade “pedra angular” do projecto foi os e as participantes realizarem oficinas criativas com jovens de uma universidade belga (Howest – Universidade da Flandres), com base num processo criativo no qual a diversidade de ideias e de pontos de vista imperasse. O desafio consistia em ir o mais longe possível da ideia inicial – aquela que cada participante trazia de casa para a concepção da oficina. E isto só pode ser possível através de processos baseados na aceitação da Diversidade e da diferença de pontos de vista e de ideias. O resultado foi um conjunto de experiências de grande sucesso, marcadas pela originalidade e inovação.

A Criatividade é a ferramenta urgente na Educação formal tradicional para que esta se adeqúe às necessidades contemporâneas. Criatividade é ferramenta imprescindível e inata na Animação Sociocultural e na Educação Não-Formal. Mais do que uma capacidade pessoal, a Criatividade pode ser um processo de um colectivo de pessoas. Os intercâmbios juvenis são laboratórios desta mesma forma de produção criativa. Como vimos, a aceitação da Diversidade permite a inovação e a solução criativa de problemas e situações. Nos intercâmbios entre jovens fomenta-se a aprendizagem e a busca de soluções criativas. A organização e a monitorização dos intercâmbios procuram ser criativas de forma a envolver os jovens e as jovens participantes nos processos de aprendizagem. Utilizam-se técnicas que estimulam a criatividade e técnicas criativas de educação não-formal.
Durante o Bearnaise Project Criatividade foi a palavra chave para todas as tarefas e desafios que se realizaram. Foram descobertos processos e métodos de construção de novas “coisas” tendo como ferramenta a Criatividade e a tolerância à Diversidade. Duas “palavras de ordem” eram: Open Mind! e No Idea Killers! Isto quer dizer que os e as participantes deveriam estar receptivos a diferentes pontos de vista e que não poderiam nunca destruir as ideias dos outros e outras participantes.

A Criatividade pode ser estimulada e treinada, assim como outras capacidades dos seres humanos. As pessoas não têm todas a mesma capacidade criativa nem o mesmo meio envolvente (família, escola, grupos) propício ao desenvolvimento da Criatividade. Por isso os intercâmbios juvenis surgem como importantes espaços de desenvolvimento desta capacidade, considerando primordial o ambiente envolvente para a geração de ideias. Destes espaços férteis ao pensamento criativo surgem também ideias para futuros projectos internacionais subordinados a variados temas ou dirigidos a determinadas preocupações.


AS TEORIAS

As abordagens aos fenómenos de Diversidade e de Criatividade levam-nos agora ao encontro de duas teorias que importam apresentar. São teorias que ilustram a importância dos intercâmbios enquanto plataformas de Educação Não-Formal, de aprendizagens pessoais e colectivas, e de inovação.

A Sabedoria das Multidões (Wisdom of Crowds)

A teoria da Sabedoria das Multidões
[2] ou sabedoria colectiva assenta na ideia de que um grupo diversificado de pessoas consegue tomar decisões mais acertadas sobre uma matéria do que um grupo de peritos nessa mesma matéria. Baseia-se no facto de que os peritos de um determinado assunto partem de pressupostos idênticos gerados pela sua formação ou pela sua prática, criando um efeito denominado “thinkgroup”. Isto impossibilita-os, muitas vezes, de tomarem decisões correctas sobre situações novas e/ou desconhecidas.
No entanto, um grupo de pessoas, de certa forma ligadas a uma determinada situação (e no qual poderão estar os peritos), consegue tomar decisões mais acertadas porque pode pensar fora dos trâmites habituais. Para isso é preciso que as pessoas se mantenham independentes umas das outras e possam exprimir a sua ideia sobre a resolução da situação, com plena liberdade. Isto é, é necessário que cada pessoa contribua livre e activamente para o encontro da solução.

A Sabedoria das Multidões foi inicialmente pensada quando em 1906 o cientista britânico, Francis Galton, decidiu estudar as respostas dadas por um grupo diversificado de pessoas numa aposta sobre qual o peso de um boi, que se apresentava vivo, depois de morto e preparado no matadouro. Galton pensou que as pessoas que não eram peritas na matéria nunca conseguiriam chegar nem perto do valor do peso do animal. Quando decidiu estudar e fazer a média das 787 respostas dadas, descobriu que a resposta da multidão era bem próxima da resposta certa. Com efeito, a média da multidão era de 1,197 Libras e o peso real era 1,198 Libras.
Galton nunca pensou que a média de respostas fosse algo próxima da resposta certa. Afinal, tratava-se de uma mistura de algumas pessoas espertas, com pessoas muito pouco inteligentes e outras bastante medíocres, e esperava-se uma resposta igualmente medíocre. Afinal Galton estava errado. Se considerarmos a multidão como uma pessoa – a resposta de um grupo como uma resposta – a resposta seria quanto uma pessoa teria calculado o peso do boi.
Esta teoria abriu a porta à possibilidade de se incluírem em processos de decisão pessoas implicadas nos mesmos mas que não se consideram peritos nas matérias sobre esses processos. Por outro lado, episódios históricos de fracasso, mostraram que se os peritos tivessem tido em conta as opiniões das multidões (das massas) os mesmos acontecimentos não teriam sido fracasso. Uma anedota conhecida ilustra humoristicamente esta situação: “o que é um camelo? É um animal concebido por uma comissão de peritos a quem se pediu para desenhar um cavalo.” Teria sido mais interessante se se tivesse desenhado um camelo a partir de um grupo diverso de pessoas a quem se pedia para conceber um animal forte e rápido como o cavalo mas resistente ao deserto. Há sempre um outro lado para mesma moeda!
Voltando à teoria da Sabedoria das Multidões, esta leva-nos a considerar importante a Diversidade dos grupos e a participação livre e independente de cada pessoa num grupo. A melhor forma de um grupo ser inteligente é que cada pessoa no grupo pense e actue da forma mais independente possível. Nesta teoria a Diversidade e a independência são importantes porque as melhores decisões colectivas são produto de desacordo e divergência, e não de consenso e de compromisso.
No processo de concepção das oficinas criativas no Bearnaise Project foram criados grupos com base nas diferentes ideias que cada participante trazia consigo para a realização de uma oficina criativa. Os participantes juntaram-se discutindo as suas ideias, respeitando a de cada outra pessoa, e produziram novas ideias. O resultado foi que várias oficinas se tornaram tão originais que proporcionaram a quem as realizou e a quem participou, verdadeiros momentos de aprendizagem com base em “coisas” nunca vistas e em experiências nunca sentidas.


O Pensamento Lateral

O Pensamento Lateral
[3] é uma ferramenta da percepção que está na base do pensamento criativo. O Pensamento Lateral está na base da geração de novas ideias. O Pensamento Lateral é uma forma de reformular padrões a que a nossa mente se habituou por meio do pensamento lógico. A reformulação de padrões está na base das ideias novas e da Criatividade. Esta teoria dá relevo ao papel da criatividade na Educação, considerando que esta não se restringe à recolha de informação mas também à forma de utilizar a informação recolhida, reformulando os padrões.
A reformulação de padrões é a chave do Pensamento Lateral. A ideia é partir dos padrões estabelecidos e reformulá-los, indo ao encontro de ideias inovadoras que resolvam situações e problemas. O Pensamento Lateral contempla saltos desconexos de ideias, que são a evolução de uma ideia para outra mais avançada, sem a descrição das ideias intercalares.
O Pensamento Lateral contempla uma ferramenta linguística que induz à reformulação de padrões e a reordenação da informação: a palavra PO. A palavra PO está para o Pensamento Lateral como a palavra Não está para o pensamento lógico, embora esta seja uma ferramenta linguística de negação.
Um dos exercícios do Bearnaise Project foi precisamente desafiar os e as participantes a realizarem uma tarefa – a de reinventar um espaço como espaço de aprendizagem – bombardeando-os com o PO cada vez que o grupo seguia um padrão. Por exemplo, se um grupo seguia a ideia de uma única pessoa – tipo líder – os formadores (mascarados de Crazy Professor) interrompiam-no com PO. Se o grupo seguia um padrão de raciocínio habitual, depois de alguém dar uma ideia, era interrompido com PO. Cada vez que o grupo ouvia o PO era obrigado a reformular o padrão que seguiam naquele momento. Isto levou à criação de impressionantes novos espaços, utilizando os recursos já existentes. Foi criado um espaço de aprendizagem sobre o Cosmos num abrigo de madeira de dois pisos; um espaço de leitura e aprendizagem de geografia numa torre de elásticos; um espaço de descoberta da natureza com mobiliário natura num pequeno recanto com árvores; um espaço de aprendizagem de canto numa manilha de cano de escoamento de águas (rolo/túnel) utilizado na construção; e até, mais tarde, um aparelho de aprendizagem de técnicas de futebol e de escalada, num grande tonel de madeira, aberto de ambos os lados, também reinventado como sala de reuniões dos formadores.

INFORMAÇÕES PRÁTICAS

O Bearnaise Project - Creative approaches in non-formal learning and informal spaces

O projecto Bearnaise é um intercâmbio de jovens, com carácter formativo, realizado ao abrigo da acção 1 do Programa Juventude em Acção (Youth in Action) , com vista à partilha e aprendizagem de abordagens criativas na Educação Não-Formal e na transformação de espaços de aprendizagens.
Esta primeira edição do Bearnaise foi realizada entre 10 e 19 de Outubro na Bélgica, pela organização Projecto Mayonaise (com coordenação de Brecht Soenen), em duas cidades: Kortrijk e De Panne. O ponto alto do intercâmbio foi a concepção de workshops inovadores a partir do encontro de ideias dos participantes. Os workshops foram realizados em regime experimental com jovens estudantes do 1º ano do curso superior de serviço social da universidade HOWEST, da Flandres, durante a sua semana de criatividade (CREA week) em De Panne.


O Bearnaise possibilitou a formação em torno das abordagens criativas, disponibilizando instrumentos, teorias e técnicas relacionadas com a criatividade e a diversidade.
Estiveram presentes jovens e adultos da Bélgica, Eslováquia, Itália, França, Bulgária, Hungria e Portugal. A equipa portuguesa foi formada por alunas e um aluno da ESEC, colaboradores da AJPaz – Acção Justiça e Paz, organização não governamental sediada em Alfornelos. As equipas dos outros países representavam organizações de trabalho social ou cultural com jovens e comunidades.

Mais informação e imagens em:
www.promayo.be

O programa Juventude em Acção

O programa Juventude em Acção (Youth in Action) é um programa da União Europeia que tem como objectivo estimular o sentido de cidadania europeia, solidariedade e tolerância dos jovens, assim como a sua participação na construção do futuro da UE. Permite a mobilidade de jovens dentro e fora da Europa.
No âmbito do Programa Juventude em Acção são desenvolvidos intercâmbios juvenis entre jovens de países europeus e de países não europeus, com vista a educar, através da educação não-formal, os jovens para a diversidade, para a tolerância, contra o racismo, para o multilinguismo, o voluntariado e permitir também a inclusão de jovens mais carenciados. Os custos de participação nos intercâmbios do Juventude em Acção são muito reduzidos e contemplam as despesas de viagem, alojamento, alimentação, materiais e monitorização de actividades.
O programa contempla 5 acções que possibilitam experiências diversas, desde os intercâmbios ao Serviço Voluntário Europeu (SVE) passando pelo apoio a organismos activos no domínio da juventude.

As acções:
Acção 1 – Juventude para a Europa
Sub-Acção 1.1 – Intercâmbios de Jovens
Sub-Acção 1.2 – Iniciativas dos Jovens
Sub-Acção 1.3 – Projectos Jovens e Democracia
Redes Temáticas
Acção 2 – Serviço Voluntário Europeu
Acção 3 – Juventude no Mundo
Sub-Acção 3.1 – Cooperação com os Países Parceiros Vizinhos da União Europeia
Sub-Acção 3.2 – Cooperação com Outros Países do Mundo
Acção 4 – Sistemas de Apoio à Juventude
Sub-Acção 4.1 – Apoio aos organismos activos a nível europeu no domínio da juventude
Sub-Acção 4.2 – Apoio ao Fórum Europeu da Juventude
Sub-Acção 4.3 – Formação e ligação em rede de profissionais activos no domínio da juventude e de organizações de juventude
Sub-Acção 4.4 – Projectos que visam promover a inovação e a qualidade
Sub-Acção 4.5 – Acções de informação destinadas aos jovens, profissionais activos no domínio da juventude e organizações de juventude
Sub-Acção 4.6 – Parcerias
Sub-Acção 4.7 – Apoio às estruturas do Programa
Sub-Acção 4.8 – Valorização do Programa
Acção 5 – Apoio à cooperação europeia no domínio da
juventude
Sub-Acção 5.1 – Encontros de jovens e de responsáveis pelas políticas de juventude
Sub-Acção 5.2 – Apoio às actividades que visam um melhor conhecimento do domínio da juventude
Sub-Acção 5.3 – Cooperação com organizações internacionais

É possível encontrar toda a informação em:
www.ec.europa.eu/youth ou através da Agência Nacional do Programa Juventude: http://www.juventude.pt. É possível encontrar informação sobre os intercâmbios e formações a realizar presentemente e no futuro em: http://www.salto-youth.net

Conclusão

Participar num intercâmbio juvenil é, hoje em dia, uma oportunidade educativa ao alcance de quase todas e todos os jovens europeus. É um complemento “vitamínico” à educação superior especializada que abre portas para um conhecimento mais profundo do mundo e permite novas perspectivas sociais, culturais e políticas. É uma ocasião ímpar para se conhecer mais jovens, para aprender novas “coisas”, para provar novos sabores, para ouvir outras línguas. É, principalmente, uma oportunidade para contribuir para a construção de um mundo melhor e mais inovador, baseado na tolerância, na compreensão e na aceitação dos outros, visando a Paz.



Referências bibliográficas

Bono, Edward, de (2005). "O Pensamento Lateral - Um Manual de Criatividade". Cascais: Pergaminho.

Filho, Rodolfo R. P. et al (2005). "Criatividade e Modelos Mentais". Rio de Janeiro: Qualitymark Editora.

Santos, Boaventura de Sousa. “Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências”. In Santos, B.S (org) (2003). “Conhecimento Prudente para uma Vida Decente. Um discurso sobre as ciências revisitado”. Porto: Ed. Afrontamento.

Surowiecki, James (2005). “The Wisdom of Crowds: Why the Many Are Smarter Than the Few and How Collective Wisdom Shapes Business, Economies, Societies and Nations”. New York, Anchor Books.

Trilla, Jaume. (2005). "Animação Sociocultural - Teorias, Programas e Âmbitos". Col. Horizontes Pedagógicos. Lisboa: Edições Instituto Piaget.
[1] Esta ideia é baseada na teoria da Sociologia das Ausências, de Boaventura Sousa Santos. A Sociologia das Ausências visa pôr a descoberto (estudar, investigar, divulgar) as realidades alternativas ausentes nas relações de grandeza que se estabelecem habitualmente, como por exemplo nas dicotomias Norte/Sul; Homem/Mulher; Cultura/Natureza; Civilizado/Primitivo. Boaventura S. Santos defende que há mais para além destas oposições. Há outras realidades que estão ausentes sempre que hierarquizamos estas relações mas que existem, fora do nosso conhecimento ocidental, embora não as consideremos credíveis, por considerarmos apenas credível o que produzimos como existente.
[2] The Wisdom of Crowds é o título do livro de James Surowiecki que explora vários casos, estudos e teorias em torno da sabedoria colectiva.
[3] Pensamento Lateral é um conceito apresentado pelo psicólogo e professor universitário Edward de Bono, no seu livro Pensamento Lateral – um Manual de Criatividade.

24.1.08

CINEMA+ASC= Bang Bang you're dead

Por: Carlos Silva




(2002) Bang Bang You´re Dead - Realizado por Guy Ferland

A criação de um filme pressupõe, invariavelmente, a apresentação de uma premissa volátil, permitindo o desenvolvimento de acontecimentos, sensações, respirares.
“Bang Bang You´re Dead” apresenta-nos essa premissa, sem no entanto ser banal ou altruísta. O contexto em que se move é vasto e multicultural, assim como as perspectivas que procura abarcar. Procura ter muito cuidado no caminho que trilha, não como sinónimo ou necessidade de perfeição, mas sim por fidelidade à temática abordada.


Num espaço educativo e geopolítico acutilante (a escola secundária), várias personagens interagem diariamente, assim como o prisma da insatisfação, depressão e alheamento. O que está aqui em causa não são os jovens tão caricaturalmente apresentados noutros contextos fílmicos. Não, estes jovens são como os apercebemos, para lá das suas catalogações fáceis e redutoras. Têm um pensamento e uma sensibilidade que não se esgota no vazio de um rótulo.


Um destes jovens é Trevor (Ben Foster), aluno problemático, visto como ameaça perigosa por parte dos seus colegas e professores. Essa visão partilhada por vários elementos da escola resulta de uma experiência passada, a qual afectou para sempre a vida de Trevor e da própria comunidade escolar.


O que promove ou instiga a diferença? O que é esta diferença? O que faz por sua vez a diferença transfigurar-se em violência? Onde existe legitimidade para enquadrar o factor opressão nessa violência, sem lhe retirar a gravidade? Várias outras questões poderiam ser apresentadas, sem que existisse resposta conclusiva acerca de cada uma delas. O filme não pretende dar nenhuma resposta, antes navega por essas hipóteses de modo cru e nu, sem sofismos paternalistas ou toadas melodramáticas, propiciando ao espectador a sua própria conclusão. É um filme adulto, um pouco perturbador, mas sincero.


A interacção de Trevor com os restantes colegas de escola, e sua interligação com um professor particular de Teatro (Thomas Cavanagh) , (o qual parece ser o único disposto a dar-lhe uma segunda oportunidade), irá marcar a sua travessia num contexto muitas vezes visto como divertido e “leve” (escola). Sabemos que algumas vezes não será necessariamente assim.


“Bang Bang You´re Dead” não é, no entanto, o típico filme do “professor salva aluno de uma existência atroz”. Nada disso. Não é um “Mentes Perigosas” (filme a meu ver carregado de preconceitos culturais e sociais, assim como de uma suavização de premissas), parecendo por vezes identificar-se mais com “O Clube dos Poetas Mortos”. No entanto esta comparação é tímida. “Bang Bang You´re Dead” reafirma o contexto difícil e problemático vivido por muitos alunos e alunas, perdidos numa esfera de exclusão, ao mesmo tempo que procura compreender algumas das suas frustrações, medos, renúncias, invocações.


E tal como disse, não o faz de modo suave, alegre ou divertido, ainda que todas essas ambiências possam também ser encontradas no contexto escola. O filme preocupa-se com personalidades vincadas, mergulhadas em dicotomias existenciais, perdidas num caminho complexo, sendo desta forma mais “noir”.
Apesar das evidências apresentadas, o filme de
Guy Ferland não é pessimista. Há lugar para a redenção, para o crescimento, para a percepção. Acolhe-se o talento, a criatividade, o amor e a esperança. Porque afinal a escola é também a casa de todas estas realidades. Basta saber como as despertar e moldar.


É fácil identificar Animação Sociocultural neste filme. É fácil sem nos restringirmos ao factor escola e/ou contextos etários. Como representante essencial da defesa e valorização do indivíduo, a Animação reafirma-se como agente de mudança e de consciencialização social, educativa, cultural.


Mas mais importante que isso, alimenta-se do seu ventre gerador para criar alternativas válidas de acção, que interajam com quem pretende impulsionar. Fá-lo partilhando o que viu com os outros, alimentando-se também dos conhecimentos que vai descobrindo a partir e com estes.


E num parágrafo se identifica o filme, a um plano conceptual, A Animação existe nele, não porque esteja em todo o lado ( não é uma super-heroína), mas porque o alimenta. E essa é a maior qualidade que lhe podemos identificar.
Criação artística sóbria e acutilante, o filme apresenta um equilíbrio narrativo num contexto descritivo difícil (escola) , deixando-nos no final uma sensação de libertação e de esperança. Altamente recomendável.


Nota: Procurei não dar muitas pistas acerca do filme, de modo a beneficiar um futuro visionamento vosso.


Link Internet Movie Database http://imdb.com/title/tt0288439/
Link Trailer http://br.youtube.com/watch?v=VOLpz-ZoLGw

Cinema e Animação Social

A partir de hoje teremos periodicamente no BlogASCE uma rubrica dedicada à sétima arte num contexto socioeducativo.

O aninador socioeducativo Carlos Silva é o responsável por nos apresentar um filme que na sua visão poderá ser um instrumento de trabalho com grupos, de reflexão sobre a sociedade e os públicos com quem os animadores intervêm.





20.1.08

ASCE no enlace multicultural































A minha comunicação realizada no âmbito da iniciativa "Encontros de Inverno 3", da Escola Superior de Educação de Coimbra, organizado pelos alunos finalistas, em 12 de Janeiro de 2008. Conforme prometido, edito-a no blog.

Escola Superior de Educação de Coimbra
Encontros de Inverno III – Diálogo Intercultural: desafios à Animação Socioeducativa
Painel: (Des)enlaces entre povos. Coimbra, 12 Janeiro 2008

Painel: (Des)enlaces entre povos
Título: A Animação Sociocultural e Educativa no enlace multicultural
(comunicação)
Autor: Mário Montez

Resumo
Tendo em conta o mote: o enlace ou o desenlace entre povos, e o contexto do Diálogo Intercultural e de Animação Socioeducativa, considerei oportuno partilhar dois aspectos: 1) o desenlace de uma prática de intervenção; 2) uma reflexão em tom de desafio para futuras perspectivas de intervenção. Isto é: uma comunicação sobre uma intervenção de ASCE num bairro africano de Lisboa; e uma reflexão, em tom de desafio, sobre o papel da Animação portuguesa no renovar das relações com os países da Lusofonia. Por um lado participando nas suas capacitações, reconstruções e evoluções, por outro, aprendendo a viver a multiculturalidade, promovendo o Diálogo Intercultural.

Palavras-chave: Diálogo Intercultural; Multiculturalidade; Animação Sociocultural e Educativa;


Introdução

O enlace da ASC no Diálogo Intercultural, em Portugal acontece nas experiências e práticas dos animadores e no campo de partilha da sua intervenção enlaçada com os povos, comunidades e grupos étnicos e culturais, residentes neste nosso (de todos) país à beira-mar plantado. O enlace ou desenlace entre os povos surge, ou deveria surgir, precisamente no lugar em que esta nossa terra encontra o mar. É deste cais de embarque que velejamos na partilha de dois aspectos sobre a ASCE e o Diálogo Intercultural:
- Uma prática de intervenção;
- Uma reflexão (ou desafio) sobre a ASCE e o Diálogo Intercultural.
A prática apresentada é espelho de várias outras similares, de intervenção em comunidades africanas diversificadas por dentro e homogéneas para quem as olha de fora. Uma experiência multicultural em Portugal, na qual o “estrangeiro” foi o animador português. Uma prática que prova o ensejo de re-enlace entre povos que durante séculos se viram (sem juízos de valor) enlaçados e depois, desenlaçados. Uma prática que tentou o enlace de uma comunidade excluída com a sociedade dominante.
A reflexão apresentada resulta num desafio para renovar enlaces, desenlaçando as relações de que há 35 anos nos esquecemos, e que ficaram do outro lado do mar.

Reinventar os espaços, criativizar e renovar as relações

Entre 2002 e 2003 participei como técnico de Animação Sociocultural num projecto governamental, em intervenção num bairro da periferia de Lisboa, habitado por gente que veio de África nas décadas de 1970 e 80. Uma população de mais de 3000 pessoas, maioritariamente cabo-verdiana, que, identificados como africanos, não eram (alguns) menos portugueses do que eu e os meus colegas. Esta intervenção contemplava a existência de uma figura de Mediador Jovem Urbano, como elemento da equipa. Uma estratégia que visava a aproximação do projecto à comunidade, procurando agir para e com os grupos deste bairro, nas suas diversas capacitações para a inclusão social. O território era a Azinhaga dos Besouros, na Pontinha. um território fronteiriço entre três concelhos: Lisboa, Odivelas, Amadora. Por isto e pela sua natureza problemática, uma verdadeira terra de ninguém.

Andar no bairro era mergulhar por completo numa experiência cabo-verdiana, ainda que numa zona pobre do arquipélago. Ali, por detrás da primeira paisagem que nos aflige, reencontrei os cheiros, os sons, as falas, os sinais, símbolos, e hábitos com que tinha contactado anos atrás no Mindelo e em Santo Antão. Neste bairro, tão agradável quanto tenebroso, tão esquecido e tão lembrado; amado e odiado, por uns e outros, nós, os “portugueses de gema” éramos os mais estrangeiros. Por isso, o diálogo era imprescindível para desenvolver acções que, para lá dos objectivos técnicos (a nossa razão de ali estar) eram necessárias para trabalhar a participação da comunidade nos seus processos grupais e individuais de inclusão social. Coisas simples como as crianças irem à escola, a higiene diária e outras necessidades básicas, faltavam, para alguns, naquele espaço comum.

Efectivamente, foi sobre o espaço que se evoluiu. Os espaços existem para e pelas pessoas. E já existiam antes da Animação. O reinventar dos espaços e a construção de relações baseadas na tolerância e na compreensão das formas de estar pessoais e comunitárias, ao mesmo tempo da assertividade nas acções e a exigência de que a multiculturalidade fosse uma via de dois sentidos, foi o sucesso da experiência. Nunca como gostaríamos, é certo. Mas a Animação nestes contextos não se faz por gostos, faz-se pelo que é possível fazer, lembrando-nos que não é feita para nós mas sim com todos.

A transformação dos espaços de aprendizagens informais – dos grupos de referência “negativos”, por espaços de educação não-formal, liderados pelos mesmos grupos tendo agora em vista novos objectivos, foi o factor que diferenciou, a meu ver, a nossa intervenção de outras anteriores. A ASALA, era um espaço que os jovens queriam utilizar; transformou-se no Clube de Jovens. A Mansão era um espaço de vivências mais veteranas de consumos, jogo e negócio entre jovens; ficou assim mas abriu-se acesso na rua para a passagem de pessoas. O Clube foi um espaço que em conjunto “defendemos” da demolição pelo município, para ser transformado em lugar de festas de um outro grupo de jovens com diferentes objectivos. O Esconderijo dos AZARAMAFAT nunca foi descoberto (pensam eles) mas sempre encorajado como espaço próprio e íntimo, de descobertas a que os jovens têm direito. No meio disto, os grandes dealers e as pessoas influentes da comunidade participaram na reconstrução de espaços e momentos, e na construção de um processo de realojamento que em breve se faria. Pelo meio, a configuração de um grupo de jovens, com saídas de conhecimento para fora do bairro e um programa de desenvolvimento de competências pessoais e sociais que os levou a experimentar profissões, desportos, e reflectir sobre as expectativas que tinham das duas vidas futuras. Um longo caminho que só em 2006 (três anos depois) se consolidou.

No desenrolar do projecto aconteceram, em ambos os lado, aprendizagens sobre o Eu e os Outros. Apreciaram-se os bolinhos da Mizi e explicou-se-lhe porque o filho não era contemplado no realojamento; e porque deveria aceitar a cor do hall da nova casa. Valorizaram-se os espaços de ócio e “desocupação”; os bancos improvisados; o kizomba e o hip-hop crioulo; os salgadinhos da jovem Didita e a venda que ela fazia pelo bairro. Ao mesmo tempo encorajaram-se os investimentos escolares junto dos jovens e dos pais. Levaram-se os problemas do bairro à Junta de Freguesia e à Polícia, e encontraram-se algumas soluções. Aprendemos passos de dança africana e como uma festa pode realmente ser organizada sem organização aparente. Entrámos nas casas e apreciámos os símbolos, e discutimos opiniões. Trocámos, entre nós, valores de uma cultura por outros de outra, e encontrámos espaço e tempos para coexistirem.

A aprendizagem deste processo leva-me a reflectir sobre as relações que Portugal e os portugueses têm com os países africanos, em particular, e com os países lusófonos, em geral. Com efeito, a guerra colonial veio pôr fim não só a um conjunto de vivências colonialistas mas também a uma relação de 500 anos de relacionamento. A emergência de uma evolução nesta relação nunca deveria ter sido conflituosa mas sim de entre-ajuda na consolidação de verdadeiras democracias, aproveitando as (também) boas relações humanas efectivadas ao longo de séculos. A retirada abrupta de Portugal do “Ultramar” para uma moderna viragem para a Europa, próspera e democrática, virou as costas à relação de Portugal com África, e também com o Brasil e Timor. Desta fase lembro o estigma, que ainda hoje perdura, em relação às sucessivas imigrações africanas, e depois as brasileiras, independentemente de trazerem operários ou dentistas. Aceites, eram apenas as personagens das telenovelas. Uma prova irrefutável de um Portugal mal agradecido, xenófobo e mal preparado, sem visão, para viver a sua “nova” Europeidade, enquanto país à beira mar plantado. Sem perceber que um dos contributos de Portugal é, realmente o Mar, a relação que temos com ele e com os povos do outro lado.

É, pois esta situação de país Atlântico “onde a terra acaba e o mar começa” que nos deverá permitir, a partir de agora virarmo-nos novamente para onde vivemos a nossa multiculturalidade, mostrando, através de metodologias de Animação Sociocultural e Educativa que é possível construir um outro mundo. Um mundo de Paz. Para quê a Multiculturalidade e o Diálogo Intercultural senão para a edificação de uma Paz global? Nesta lógica, mas noutro contexto, é também desafio o diálogo de Portugal com Espanha e a construção de redes Ibéricas para o desenvolvimento social. Como viver o Diálogo Intercultural se não dialogarmos com o nosso vizinho? Escusado será enumerar alguns dos ganhos que Portugal tem na relação com Espanha – não de subserviência mas de diálogo e de parceria.

Voltando à questão atlântica, e aproveitando a deixa sobre parcerias: O desafio da Animação Sociocultural e dos profissionais que a desenvolvem passa, hoje, indiscutivelmente, pela vivência de um Portugal Europeu. Mas um Portugal Europeu que possibilite à Europa o que mais nenhum país consegue possibilitar: As parcerias e relações privilegiadas com África e Brasil (este último como uma das futuras potências mundiais, onde no campo social e dos Direitos Humanos tanto temos a colaborar, como na área da educação temos a aprender). Abrir a Europa ao Diálogo intercultural não é mais do que aproveitar a situação geográfica e Histórica de Portugal, e uma possibilidade de provar que não se cometem os mesmos erros duas vezes. Uma rota com vento de bombordo aguarda os novos e as novas profissionais da Animação Sociocultural, para um trabalho de reconstrução e enriquecimento multicultural. Assim, de uma forma empreendedora, re-enlaçamos laços desenlaçados, num futuro de Diálogo Intercultural.

20.12.07

Reinventar Portugal e “reAnimar” o Português

No último número da revista Artigo Feminino, da AJPaz a minha colega e amiga Teresa Cunha manifesta o seu descontentamento com a fraca evolução da realidade portuguesa no campo da igualdade de oportunidades e dignidade para todos, através de uma deliciosa frase simples retirada de uma obra de Teolinda Gersão: “Portugal está muito imperfeitamente inventado”.

Embora saboreie com gosto a habilidade da expressão, tenho de não concordar em absoluto no sentido que a frase pode fazer seguir. E deixo-me levar por um jogo de palavras que se descobrem a partilhar, afinal, todo o sentido da frase, num exercício de porvocação que me dá prazer.

E ao provocar, vem-me imediatamente a lembrança daquela anedota sobre a criação de Portugal por Deus. Ao verem que Deus criou uma terra tão geograficamente e meteorologicamente equilibrada, em contraposição aos anteriores lugares criados de forma a que os povos tivessem de se esforçar na vida, os anjos interrogaram-no, certificando-se de que Deus estava a agir conscientemente. Este respondeu-lhes profeticamente: esperem até verem os habitantes que lá vou pôr!

Esta versão anedótica da invenção de Portugal e dos portugueses leva-nos a perceber que não é o território que se apresenta defeituoso mas sim os seus habitantes… ou os seus/nosso hábitos. Faz-me lembrar uma sábia resposta de uma ansião de família quando se falava em implementar em Portugal um sistema de participação cívica semelhante ao que existe em alguns países escandinavos. A isso ele respondeu: pois era, mas para isso era preciso trazer para cá os escandinavos porque nós dávamos logo cabo do sistema!

Eduardo Prado Coelho publicou uma crónica em que atribui a nós portugueses o problema da ineficácia da e das governações. Dou-lhe razão. Para cada governo que passa há uma imediata manifestação e avaliação de que não presta. Eduardo Prado Coelho afirma que o problema não é do país, não é do governo, mas sim da matéria prima com que ele é feito: Os Portugueses, “matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos”.

Ao olhar para trás na História, servindo-me da perspectiva positiva que orienta este blog, não encontro tempo em que a vida da maioria de todos nós não tivesse a mesma qualidade e a liberdade que temos hoje. É certo que nos comparamos com os nossos vizinhos Europeus. Tirando isso, este tempo da História é o único que nos traz estabilidade com democracia. Não me refiro a este ano de 2007 em particular mas sim aos últimos 33 anos, desde 1974, que serão, para a História, um tempo só.

Uma breve e ligeira retrospectiva faz-nos ver que nunca tivemos à disponibilidade da maioria da população os serviços sociais, políticas públicas e direitos que temos hoje. Em resenha: Durante sete séculos vivemos sob a égide da monarquia, nas suas mais variadas formas em que a maioria era Povo sem poderes, alguns eram burguesia com algum poder, e outros clero e nobreza com muito poder. Ao longo de dezasseis anos saboreámos uma infeliz e desgovernada república que originou uma inicialmente bem recebida ditadura que se prolongou durante meio século. Mesmo depois de Abril ainda se passaram alguns anos na corda bamba até podermos sentir alguma estabilidade política e social.

Por isso, em vez de pensar que Portugal está muito imperfeitamente inventado, gosto mais de sentir que Portugal está muito bem inventado… mas tem sido mal utilizado… pelos portugueses!

Acredito que caminhamos para uma evolução e que estamos a construir a nossa identidade democrática e de cidadania, subindo aos poucos na nossa pirâmide de Maslow da satisfação das necessidades. Uma construção que se torna mais difícil à medida que vamos descobrindo novos desafios e novas necessidades. Mas que tem de ser possível, porque somos iguais aos povos de outros lugares que conseguiram avançar. Um desafio que temos pela frente.

Um desafio para o qual contamos com a acção fundamental da Animação Sociocultural e Educativa, numa construção participativa e consciente dos direitos e deveres, e das igualdades de oportunidades. Uma acção que, mais uma vez deverá ser capaz de ver as oportunidades da sua prática onde a generalidade das pessoas apenas vê dificuldades e obstáculos.

Sentir que os portugueses “dão cabo dos sistemas” é também perceber que somos capazes – como já provámos – de destruir sistemas opressivos e sistemas fracos e desgovernados que não nos servem. Precisamos de procurar o nosso sistema; a nossa própria dinâmica que acredito que se continuará a guiar pela via da democracia e da liberdade que nos trouxe o 25 de Abril. No entanto, a ASCE terá de perceber que existem hoje novas revoluções a levantar, utilizando outros instrumentos de luta contra o conformismo e contra a manipulação ideológica, qualquer que ela seja. Já não é o animar a malta o que faz falta, como cantava Sérgio Godinho. Para mim, a malta está animada e é altura de deixar o bailarico para reflectir e voltar a pôr mãos à obra.

Se Portugal está muito imperfeitamente inventado temos de reconhecer que tudo é assim porque, como cantavam os Heróis do Mar, "o inventor de Portugal foi um Português". Por conseguinte, voltamos ao mesmo, no qual concordamos: “o problema é da matéria prima”; de nós e dos nosso nossos hábitos. Mas não há qualquer problema com o lugar.

17.12.07

Açorda e a Animação - mais oportunidades para a acção


Os actuais acontecimentos que têm popularizado a ASAE e as suas actuações em relação à gastronomia levam-me a partilhar um receio e manifestar descontentamento: o fim de uma identidade cultural - gastronomia. Aqui, a seco, mais uma ameaça que se deverá tornar oportunidade para a acção, empenho e criatividade dos Animador@s de hoje.
-------------------
Os meus avós não comem bolos com natas ou cremes no Verão. E nunca precisaram da ASAE para lhes dizer que pode ser perigoso!

A troca dos valores culturais por algumas absurdas normas de higienização e de qualidade dos alimentos, trazem ao de cima três aspectos fundamentais:

1- Censuram-se os resultados em vez de se informar sobre os processos.

2- Perdem-se tradições e parte de uma identidade cultural.

3- Desenvolvem-se pessoas frágeis.

Numa sociedade que deveria ser da informação, a actuação da ASAE relembra-nos a acção de uma Gestapo preocupada em censurar, abater e acabar com toda uma cultura e suas manifestações, neste caso, GASTRONÓMICAS. Ao mesmo tempo crescem crianças em espaços herméticos, sem anticorpos de qualquer natureza, prontas a demonstrar a sua fraqueza na primeira virose que contraírem.

Sabemos que ninguém pretende comer no meio de ratos ou de comida caída no chão. As pessoas apenas querem comer o que comiam sem que nada ou muito pouco lhes acontecesse. Há pessoas que gostam de comer alimentos que não sejam iguais em todos os cantos do mundo, que não venham em saquetas e confeccionados com as proporções exactas descritas em qualquer manual de Fast Food. Há pessoas que apreciam a comida e que a reconhecem e precisam de a sentir como parte da sua cultura, da sua educação.

Ao mesmo tempo, esta súbita política de saúde pública leva-nos ao encontro de uma possível ascensão de negócios nas áreas da higiene e qualidade, embalamento de produtos, produção de plásticos, etc. Um role de actividades industriais e de serviços que, mais uma vez, inevitavelmente se associam oportunamente à implementação das ditas "normas" da UE ou do Estado Português. Um claro exemplo de como as ameaças se tornam oportunidades. O que poderá preocupar é se estas ameaças foram já pensadas como oportunidades!

Depois da proibição da Açorda, do arroz de Cabidela, do embalamento de pães (que até se compreende mas que não dão gosto comer), resta-nos não comer mais castanhas na rua, embaladas em lista de telefones. Ou não ver grelhar peixe na rua (acho que já não se pode), retrato típico e inofensivo português, além de cartão de visita turístico. Ou deixar de comer caracóis numa esplanada à beira mar, ao pôr do sol. Resta-nos que nos tirem a comida da boca quando, em casa, nos preparamos para saborear o que já não se come fora de casa. Imagino um cenário de restaurantes underground, quais catacumbas dos primeiros Cristãos fugidos ao poderio Romano. Um mundo de segredos sobre onde e quando se podem comer "coisas boas". E um dia, um amigo estrangeiro pergunta-nos: what's tipical to eat around here? E nós dizemos: Nada. You want to try real food, go to Maroco! They still do it.

Face a esta política inconsciente (?) de descaracterização cultural, e tendo em conta uma visão positiva para a acção da ASCE, o desafio d@s Animador@s está em conseguir fazer viver e lembrar as tradições gastronómicas como parte de uma identidade cultural, valorizando a informação, contra a sobreposição da censura e da proibição desmesurada.

Duas propostas:

1 - A definição e promoção de uma tipologia de restaurantes típicos denominada de TASCA. Nestes locais, geridos localmente e por comunidades, existe informação sobre os potencias perigos de algumas comidas, de forma a que o consumidor faça uma escolha por si.

2 - Confecção da MAIOR AÇORDA do MUNDO para o Guiness book, chamando a atenção de toda a comunidade para a situação actual. Uma Açorda que não será vendida às pessoas mas sim oferecida, como se eu oferecesse o mesmo em minha casa. A isto a ASAE poderá reagir?


Espero as vossas ideias e indignações... ou contraposições.


Em prol da Açorda!... e de tudo o mais que nos será interdito.

querer SER cada vez mais

O comentário da Ana Durão é um olhar sobre o tema que se encontra "em cima da mesa" e que pelas suas ideias concretas e complementares merece uma leitura atenta.
Ana Durão é uma estudante activa e crítica de Animação Socioeducativa.

"O equilíbrio poderá ser exactamente a ponte entre os paradigmas que se constituem como alicerces da ASCE e as respostas às necessidades, duma sociedade actual e em constante mutação, através de estratégias inovadoras e criativas provenientes da competitividade.

Esta competitividade pode ser vista noutro prisma, no ser capaz de se fazer cada vez mais e melhor, criando organizações de base; competitividade no querer Ser cada vez mais. Pode ser entendida como sinergia.

Acredito que tod@s temos um espaço e um contributo a dar. Considero que aprendemos a cada dia a ser melhores animador@s e melhores pessoas.

A Animação: “se distingue más por su manera de praticarse que por sus actividades específicas; es un modo de actuar más que un contenido, en todos los campos del desarrollo de la calidad de la vida. Cada uno se convierte en agente de su proprio desarrollo y del desarrollo cualitativo de su comunidad” (Hicter, 1978,cit. por Quintana, 1992, p. 29). É neste sentido que julgo que a Animação pode ser entendida na óptica empresarial, enquanto prestação de serviços, na concepção, realização e avaliação de projectos.

Só mais um pensamento: o grande número de animador@s profissionais e licenciad@s a par da competitividade, não só poderá contribuir para o aperfeiçoamento destes/as profissionais, bem como para a sustentabilidade profissional; isto é, o trabalho em grupo leva a uma menor carga horária para cada pessoa, o trabalho é "repartido", permitindo o desenvolvimento de projectos de longa duração. Estou a pensar mal??
Até jASE
:)Ana Durão

20.11.07

Competitividade - do Animador para o Terceiro Sector

Como conclui anteriormente, a competitividade é um factor que poderá enriquecer o campo de acção da ASC em Portugal. O facto de anualmente se formarem centenas de Animadores, a nível superior e técnico-profissional, deverá, numa óptica positiva, estimular a criatividade e fazer surgir novas formas de animação sociocultural e educativa, respondendo directamente às necessidades de desenvolvimento das comunidades urbanas e rurais, dos grupos vulneráveis e de risco, das políticas de inclusão, de combate à pobreza e de apoio social.

É neste vértice de resposta às necessidades que a competitividade associada à acção dos Animadores se encontra com a necessidade de modernizar e "criativizar" o Terceiro Sector.

Estreitamente ligado às respostas de natureza social, o Terceiro Sector, ou das Organizações Sem Fins Lucrativos, é o sector da economia onde se desenvolvem uma grande parte das actividades realizadas pelos Animadores Socioculturais. É o sector de actividade que consegue responder às necessidades socioculturais de formas mais ágeis e próximas das pessoas, do que o Estado. É, por outro lado, o sector que consegue garantir respostas sociocuturais mais acessíveis, a nível de custos, do que o Mercado. É, portanto, nas falhas de respostas do Estado e na inacessibilidade para todos, das respostas do Mercado, que se encontra este sector não lucrativo.

Mas este sector não lucrativo depara-se actualmente com um crescimento que o torna, por um lado muito relevante no panorama económico nacional, e por outro, muito necessitado de se adaptar às exigências de uma gestão moderna, baseada em estratégia de "mercado" e de planeamento, de forma a sustentabilizar a sua sobrevivência e a tornar-se independente dos (cada vez menos) financiamentos Estatais.

Este factor, motivado pela acção de muitas organizações sem fins lucrativos e pelo "atropelamento" de respostas, por vezes junto das mesmas comunidades, precisa de encontrar na COMPETITIVIDADE um pretexto para evoluir, de forma criativa e estratégica, definindo prioridades de acção e, por exemplo, de especializações das respostas às necessidades socioculturais diagnosticadas.

A competitividade é já, neste momento, uma realidade no Terceiro Sector, em actividades como angariações de fundos ou traduzida nas candidaturas a financiamentos para projectos, que são nada mais que formas de sustentabilizar as acções das organizações, manter os técnicos na organização e, evidentemente poder responder com qualidade às necessidades das populações e comunidades com quem trabalham.

Tendo em conta que a competitividade deverá motivar para a criatividade; e tendo em conta que uma das características de um Animador Sociocultural deverá ser a criatividade, qual o papel que poderá ter o Animador nas organizações não lucrativas?

É importante percebermos que o papel do Animador é o de suscitador de mudança. Por isso não se deve acomodar (nem no conformismo nem no activismo). O Animador deve, sobretudo, inovar, mantendo-se atento aos princípios e metodologias que norteiam a ASC. Assim, além de trabalhar para a consecução de resultados de mudança e de participação junto das comunidades com quem trabalha, o Animador pode trabalhar para o alcançar dos mesmos objectivos, dentro das organizações onde trabalha. Desta forma será um contributo à inovação de uma organização sem fins lucrativos, rumo à sua sustentabilidade, numa perspectiva de sobrevivência para além dos subsídios e financiamentos exógenos.

O cenário de competitividade vivido pelos actuais e futuros Animadores Socioculturais deverá ser gerador de mudança de paradigmas de acção e de funcionamento das organizações. Deverá ser construtivo e não destrutivo. Deverá sempre ter em conta os valores de cidadania, a participação e a resposta às necessidades sociais.

É necessário pensar numa competitividade saudável como ponto de partida para uma evolução.

13.11.07

Competitividade


Um dos fenómenos referidos na mensagem anterior e que poderá ser visto como uma oportunidade, é a competitividade. A criação de diversos cursos profissionais e superiores em ASC levam para o mercado de trabalho centenas de pessoas formadas na área.

Se por um lado este fenómeno apresenta dificuldades de empregabilidade, por outro, poderá significar competitividade saudável. Observando as boas práticas geradas pela competitividade no sector do Mercado, podemos preconizar um crescente de criatividade e inovação na área da ASC.
São portas que se abrem para a constituição de empresas e de associações; consultores; serviços de concepção de projectos; serviços de animação diversos junto das comunidades; formadores de âmbito nacional e internacional; e outras formas inovadoras de encarar a ASC e de, consecutivamente sermos capazes de criar novos postos de trabalho.

Importante será não deixar submergir os princípios, valores e metodologias da ASC por debaixo de um tapete altamente comercial. Deve-se ter em conta a Sustentabilidade mas não a ambição súbita do lucro. Como o nome pintado num barquito de pesca moçambicano nos relembra: "cuidado ambição".

Então, que equilíbrio conseguiremos entre uma forma tradicional de Animação e uma forma mais empresarial de ASC?

Existem boas-práticas e ideias concretas que poderão ser partilhadas? Ou também receios, visões e sugestões.